Salvação


                                                                                                 
Ele se lembrou da noite passada. De como Jesus lavou os pés de cada apóstolo, 
com a delicadeza de uma serva, com o cuidado de um pastor com seu rebanho, com
o amor de um pai pelos seus filhos. Naquele momento, seu coração se encheu de
 amor e ele desejou não seguir em frente, mas não poderia.
Judas mordeu a corda com raiva. Esperava que a dor pulsante em seus dentes 
acabasse com a dor que sentia por dentro. Ou seria amor o que sentia?
Não foram as 30 moedas o motivo. Ele devolveu. Então se perguntava por que
 fizera tudo aquilo.
Lançou a corda sobre a árvore. A árvore que se apresentava seca, sem frutos
 e sem vigor algum, agora parecia mais forte e tolerante do que Judas. 
Por que a culpa se Jesus sabia de tudo? Como ele permitiu Judas chegar
 aonde chegou? Como afirmou que alguém faria e se deixou levar para a morte?
Jesus sempre falava de um plano. Um plano maior com o qual não suportaríamos.
 O tal plano pra Judas agora, seria uma desculpa, um escape, um consolo. 
Mas ele não fazia parte do plano, ele simplesmente acontecera no meio da história,
 como símbolo de traição, símbolo de orgulho, de hipocrisia, de maldade: humanidade.
Perguntou-se quando foi que o amor deixou de ter forma; quando foi que sua lealdade
não tivera valor. Foi quando Jesus afirmou que alguém faria isso? Foi quando ele se
perguntou se seria ele?  Jesus permitiu que ele se expusesse, deixou-se ser beijado,
deu as mãos à corrente, curou a orelha de um soldado, mas e Judas? Seu beijo e sua
alma agora seriam exemplo de alma e fim.
Sentiu o gosto do beijo, Tinha gosto de ferrugem; Gosto de moeda molhada, molhada
 de saliva, de cruz, prazer, dor.
Pensando e sentindo, seus dedos massageavam as cordas com força. Uma força 
de nervosismo e pressa.
Ajeitou cuidadosamente a corda sobre o seu pescoço. Mal tocava a pele da
sua garganta, e Judas já sentia o sufocamento acontecendo. Faltou-lhe ar por 
uns segundos, o que não fez diferença, porque para Judas, àquela altura, já
 se considerava sem vida. Entretanto tirou a corda e sentou para respirar fundo.
Queria acabar logo com isso. Queria uma forma mais rápida de cessar o caminhar. 
O que ele temia na verdade era a demora com que o enforcamento arranca a vida 
de seus condenados. Judas queria uma morte rápida, ou era em que escolhia acreditar
Começou a sentir o desejo de gritar. Apertou os dedos do pé, mordeu os lábios, 
franziu o cenho. Gritou alguns nomes, e depois disso, se enforcou.
A corda permaneceu um século até se decompor.


Múltiplos

                                                                                 
Os dois se olhavam. Eram 10h e 25 da manhã.
Ele pegou nas mãos dela e a olhou carinhosamente. Gostaria que aquele momento não findasse jamais. Olhou em volta e decidiu que não existia melhor segundo para se iniciar um beijo. Inclinou seu corpo na direção do corpo dela. Sentiu o perfume doce, cabelo macio, pele sensível. E antes que o tempo passasse, eles o interromperam.

Os dois se olhavam. Eram 10h e 25 da manhã.
O calor de um dia de verão somado ao momento de entrega os faziam transpirar, comovidos com a vontade de serem. O menino sentiu seu coração pulsar constantemente com ritmo. Sentiu que a sua vida agora tinha trilha sonora. E com vontade de beijá-la, ele começou a cantar.

Os dois se olhavam. Eram 10h e 25 da manhã.
Eles esperaram um longo tempo por aqueles únicos segundos.  O mar nos olhos dela, aquele azul tão sereno, não serviria para um beijo. Seria vulgar demais. Ele limitou a sua expressão a tocar no rosto dela, colocar seu cabelo para trás da orelha, e lhe dar um beijo na testa.

Os dois se olhavam. Eram 10h e 25 da manhã.
Ela lhe disse que nunca havia feito isso. Ela tinha medo. O primeiro beijo envolve ar e coração. Ele pediu para que ela se lembrasse de algo que tinha saudade. Suas tardes de infância, as brincadeiras na casa da avó; sua nostalgia agora, era fotografia para o beijo dos dois.

Os dois se olhavam. Eram 10h e 25 da manhã.
Ele fechou os olhos por alguns segundos. Queria dizer algo que não caberia em palavras. Fitou os detalhes que preenchiam a imagem dela: os brincos verdes, que ele tanto gostava, o azul dos olhos dela. Aquela paisagem plena de céus e verdes que, no meio da selva de pedra, ele só veria nela.  Decidiu não quebrar o silêncio. Afinal, o beijo tem som.

Os dois se olhavam. Eram 10h e 25 da manhã.
Eles não precisavam. Sabiam que o beijo não era suficiente. Eles já possuíam o completo. Dentro de si um ao outro, e isso era o todo. Sem beijo, sem contato físico. Mas eles queriam. Aproximaram-se o quanto deveriam, impulsionaram os sorrisos ao encontro e se entregaram, inteiros.
           
Os dois se olhavam. Eram 10h e 25 da manhã.
Ele chegou perto. Conseguia sentir o respirar suave com que ela falava. Ele não vivera o suficiente. Sabia disso e queria experimentar o quanto podia. Experimentar todo este sentimento que tanto o confundia e, pela primeira vez, o deixava sem ação. Ele sentiu. Sentiu e saiu correndo o mais rápido que podia. Correu até a mesa, pegou o papel e o lápis, e desatou a escrever.
                                                                                             
Os momentos foram e serão até que se diga não à vida.












Do Mau tempo

No meu dia pior 

O sol se pôs do mesmo lado.

Sem cigarro, como ele.

No fundo se
do que eu fumasse,
inalasse o sabor
da duração do filtro, tal
como uma vida, que a minha
a durar
não muito mais que o objeto.
não muito mais que dejetos.
será, eu a vida como o filtro com chama, depois pó.

Vistam-se

Essas páginas vistas aí são escritas não de tinta, e sim suor.
Surrada de verbo.
não é o elo que a fez perder a cor.
Se há falta em algo, façam por a ler.
se há fome de fato
é de não vida.
E se eu a quero mostrar, essa chuva podre que é a lembrança de um beijo de judas servida pelo seu leito de amor, é porque eu a amo, de fato e de foto.

Posso a posse?


essa menina,
que eu penso
que se é tão perto
e não é sina
não poderia, além do sonho, ser minha.

Mexe


Do pé ao palco pela dor
Da fé ao talo de uma flor
Enquanto você dançar, o mundo e o pé, a mão e o amor:
Será tudo movimento.